Estive a pensar, nas últimas quarenta e oito horas de minha atormentada vida, o quão engraçada é a situação humana. Vivemos apoiados em sonhos e fantasias. E nossa convicção de que aquilo que idealizamos, perfeito em sua plenitude, é tão sólida que, a qualquer brisa que soprar e ameaçar derrubar o império imaginário que construímos para nós mesmos, cai por terra a esperança e a racionalidade. Ai de mim, que costumo pensar com o coração e não com a cabeça. Hei de iludir-me, hei de sofrer a praga do sonho que não se realiza. Se eu pudesse desvendar os mistérios da vida, e mais, os mistérios de mim mesma, talvez minha lamentação não fosse necessária. O fato é que, quanto mais eu sopro a neblina da minha mente, mais as brumas do mistério me envolvem e me carregam para longe. E é tão longe... Eu não me encontro. Eu não encontro o sentido do que digo. Eu não encontro as peças do meu coração partido, nem as migalhas dos sonhos que alimentei num passado não tão distante. Recolherei, se ainda houver forças, os pedaços de mim que caíram conforme eu cantava os hinos da felicidade fingida. Se for preciso olhar para trás, prefiro que meus olhos percam a cor. Então, minha vida perderá o sentido, e o caminho que seguirei será apenas meu, de mais ninguém.
Não voltarei atrás, o que está feito foi feito. E que assim seja.