sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Abriu os olhos e não conseguiu acreditar no que via. Era como se uma força maior, algo incontrolavelmente intenso, a fizesse sentir como se um buraco se abrisse em seu peito. Fez força para respirar, numa tentativa desesperada de que o ar inalado pudesse preencher o vazio que a dilacerava, mas foi em vão. A dor e a agonia crescente daquele gesto, aparentemente inocente, acertou em cheio seu coração, como uma bala de prata, e desencadeou uma chuva de lágrimas.
Uma a uma, elas percorriam a expressão paralisada na face daquela garota. Em um minuto ele estava ali, ao lado dela, apertando-a fortemente em um abraço gelado de despedida, e agora a única lembrança existente era aquele casaco perfumado que ele havia deixado em posse dela.
Dentro do táxi, a cena ocorrida no aeroporto se repetia, inúmeras vezes, na cabeça daquela menina atordoada. Durante a volta para casa, ela remoía cada pedaço de sua tristeza, cada lágrima derramada em um livro de recordações guardado em sua memória. Ela se lembrava de tudo; De toda a felicidade e a tristeza que aquele rapaz a proporcionava, e o imenso vazio que deixava nas diversas vezes em que teve de partir.
Ao chegar em casa, permitiu-se abrir um meio sorriso ao avistar o bilhete escrito por ele e deixado à porta da geladeira, contendo a data do próximo feriado e os horários do voo de retorno. Era assim, toda vez. Os dois moravam em cidades distantes uma da outra, e viam-se apenas algumas poucas vezes ao ano. Mas ela não se sentia arrependida - pelo contrário, nunca havia sido tão feliz em toda a sua ignóbil existência. Mesmo fazendo-lhe mal, fazia bem, pois, a cada partida, em que ele levava consigo um pedaço do interior dela, ela sentia-se encorajada a acordar todas as manhãs e desejar viver, mesmo que ordinariamente, apenas por saber que teria o prazer de desfrutar, novamente, daquele amor."

Desplugue sua mente.

Desplugue sua mente.
Viva a vida fora da prisão eletrônica.