Devaneio. Devaneio e me arrisco a abrir a cortina para enxergar o que há por detrás do palco dos horrores que é a vida. Em meu corpo fica a sensação de perda, de dor. É como olhar para suas próprias mãos e não enxergar nada além do Carbono. Mas eu sou mais do que Carbono amontoado, certo? Pensei que fosse. E conheci pessoas, e mais pessoas, e nenhuma delas pareceu satisfazer-se comigo. E em cada música que eu ouvia, descobria um mundo infinito de projeções em que o único alvo era eu. Agora, depois da tormenta, é fácil olhar nos olhos do espelho e ver refletida a imagem de alguém que cansou de fingir que seguia regras. Finalmente entendo o que Zé quis dizer com "não vou me sujar fumando apenas um cigarro." Eu escolhi ser limpa, mas o mundo corrompeu o que havia de ingênuo dentro de mim. É quando o limpo se suja. É quando o vinho vira água. Então eu decidi me lambuzar com a lama de mim mesma a fim de que o tempo cuide de mostrar ao mundo a bailarina que dançava sem música. Se fizer sentido, talvez eu deixe de sentir como se estivesse desaparecendo. Talvez, quando eu olhar para minhas mãos, eu volte a enxergar aquilo que via antes de começar a dar ouvidos às vozes de reprovação que me torturavam. Talvez, ao invés de me sujar fumando apenas um cigarro, fumarei muitos mais, e beijarei as bocas lascivas com o batom que eu inventei para mim, um batom de auto aceitação e piedade. Talvez o meu mundo faça sentido. Talvez o sentido faça o mundo.
Talvez eu enlouqueça com isto que acabo de escrever.