sábado, 10 de outubro de 2009

Ração para Gatos

Há quase dois anos, depois de muita conversa e argumentação, consegui que minha mãe me deixasse ter um animalzinho de estimação. Digamos que o meu histórico com os pets não é lá dos melhores: tive uma cachorra anti-social, anti-donos e muito dada a mordidas, por sinal, chamada Pantera; uma gata, a qual meu irmão mais velho batizou, criativamente, de Brigitte Bardot, que foi expulsa por ter tido filhotes; e vários peixes da espécie beta. Todos (os peixes) faleceram, obviamente. Tive também, por duas semanas, um filhotinho felino, dado de presente à mim por meu tio-avô Ataíde. O bichinho era uma graça, todo branquinho, um olho azul e outro verde, uma fofura. Convocamos uma reunião familiar para decidir o nome do animal, mas, como nada foi resolvido, eu passei a chamá-lo carinhosamente de Chanin. Era Chanin pra lá, Chanin pra cá, Chanin para todos os lados. Depois de um tempo a gente cria feição com os bichinhos, e eu já considerava o Chanin como se tivesse saído de dentro de mim. Humano é mesmo um bicho burro e cruel. Minha megera Progenitora, que não gostava nada do felino, tratou logo de assuntar o gato para a empregada, que acabou levando o coitadinho embora no dia em que foi despedida. Pobre de mim, pobre de minha infância! Qual a criança no mundo que não ama animais? Meu mundo caiu; meu filho Chanin tinha sido levado pelas mãos do destino, esse demônio disfarçado de cartomante agourenta. Chorei durante vários dias, e em homenagem póstuma à meu sofrimento, guardei em uma caixinha de sapatos todos os antigos pertences do gatinho. Claro que depois de um mês, após ter ganho um patinete, a maior sensação da molecada do meu prédio, esqueci toda essa história de Chanin e animais de estimação. Passava os dias andando de patinete, caindo, ralando o joelho e caindo de novo, dessa vez ralando o cotovelo. Ah, como eu fui feliz...! Até que um dia meu irmão, com toda a sua brutalidade dos garotos de treze anos, quebrou meu patinete em duas partes inúteis. Como eu ia ser feliz agora? Meu coração foi partido mais uma vez, enquanto eu sentia que minha dignidade valia tanto quanto a meleca que eu tirava do nariz e colava debaixo do sofá. Tristes dias, aqueles. Sem gato, sem patinete, sem dignidade... Eu era uma criança de dez anos derrotada. Entretanto, fui obrigada a engolir o choro quando caí de amores por meu vizinho dentuço e magrelo. Vejam só a ironia do destino: o apelido dele era Rato! Essa era a minha sina, estar eternamente ligada à animais, frustrações, patinetes e essas coisas. Ainda bem que, junto com a infância, passam também os problemas dessa época. É quando os peitos começam a crescer e a gente tem sangue saindo do meio das pernas pela primeira vez: isso sim é que é problema. Eu nunca entendi muito bem a relação dos hormônios com as nossas emoções, mas atribuí à eles a culpa pela minha vontade de voltar a ter um animal de estimação. Eu passava os dias sozinha, precisava de uma companhia. Até que um dia, depois de tudo combinado, assinado e registrado em cartório (apenas uma precaução para palavra de Mãe, nunca acredite nas promessas delas!), meu irmão mais velho apareceu com uma bolinha de pêlos cor de laranja nos braços. Ele soltou a coisa no chão e a coisa logo veio caminhando para o meu lado. Era um gato. Um gato que meu irmão tinha pego na rua. O gato deu uma olhada pra mim, abaixou a cabeça e começou a se enrolar em minhas pernas. Percebi que, além de sujo, o felino estava infestado de pulgas. Acho que o banho foi, e ainda é, a parte mais traumática na vida de um bichano. Se fosse apenas água era até capaz de eles aguentarem. Mas, com as modernidades deste mundo, temos shampoos anti pulgas, colônias, secadores, toalhas, tudo para que eles fiquem limpinhos, lindos e cheirosos. E livre de pulgas, é claro. Parece que foi só eu pensar em dar banho nele que o gato alaranjado me olhou com aqueles olhos de 'pegue-me se for capaz' e disparou para o primeiro canto que parecia servir de esconderijo. Até hoje tenho certeza de que ele pode ouvir meus pensamentos. É só eu pensar na palavra banho e o meu gato fica escondido até eu mudar de ideia. Ou então, é só eu pensar em comer alguma coisa doce que ele já vem atrás de mim, com aqueles olhos grandes e fofos e aquele ronronado meigo. Odeio o quanto os gatos são manipuladores. Enfim, alguns dias depois, resolvi que ele se parecia, em personalidade, com o Naruto do desenho, e pronto, o nome do meu bichano estava escolhido. Até hoje não me arrependo dessa decisão. O Naruto tem mesmo muita cara de Naruto. Voltando ao primeiro dia, o bichano parecia estar num sonho frenético. Ele corria, rolava no chão, miava de contente. Pelo menos, eu acho que sim. Com certeza ele ficou feliz na hora em que eu coloquei comida pra ele, um resto de arroz e carne de frango do almoço. Depois, ele começou a cheirar tudo que via pela frente. Querendo ou não, aquele ia ser o seu novo lar. E, sinceramente, o meu gatinho se acostumou muito bem às mordomias domésticas. Esses dias abri um pacote de ração pro Naruto, daquelas rações que aparecem em comerciais de tv. A ração tinha um não sei-o-quê que fez despertar o meu lado consumista. Eu precisava comprar a ração, mesmo pagando tão caro quanto se fosse comprar comida para mim mesma. Pois bem, abri a embalagem plástica e coloquei um pouco no pratinho do Naruto. Ele comia com gosto. Com tanto gosto que me deu até fome. Fui à geladeira procurar por algo para comer. Talvez, algo parecido com ração para gatos. Mas não tinha nada lá que despertasse em mim a gula que a tal da ração da tv despertou. Sentei à mesa da cozinha por um instante. Quando eu era criança, algumas vezes, comia a ração dos meus animais. Era uma coisa normal, toda criança passa por essa fase de comer coisas não convencionais, faz parte do desenvolvimento criativo e, porque não, gustativo do indivíduo. Eu não era mais criança, então não poderia me desculpar depois caso alguém me visse atacando o saco de ração. Meu gato me olhava com uma expressão parecida com a de minha mãe quando eu estava para fazer alguma idiotice. Por fim, decidi, com toda a maturidade dos meus quase dezoito anos, experimentar um grãozinho da comida do Naruto. Peguei o pacote, enfiei a mão e peguei um pouquinho. Mas aquele pouco era muito pouco. Enfiei a mão novamente e peguei uma quantidade maior. Ai, minha boca salivava. Eu precisava comer aquela ração. As cores da embalagem eram tão bonitas, e o Naruto estava comendo com tanto gosto... Joguei toda a ração que tinha pego na boca. Mastiguei. Primeiro, senti um gosto de infância. Dois segundos depois, estava cuspindo a ração na pia. Eca! Aquilo tinha gosto de... gosto de sei-lá-o-quê! Algo que mistura fígado, rins, mariscos, legumes e abóbora. Lembrei-me da sensação que tive quando comparei minha dignidade à meleca de nariz, alguns anos antes. Grande jogada, Verônica! Meu gato ia atrás de mim, e eu posso até jurar que ele estava rindo. "Ok", eu disse para ele. "Você venceu, mais uma vez."


Pelo menos uma coisa eu aprendi com toda essa situação. Nunca, em hipótese alguma, assista aos comerciais de ração para gatos na televisão. Evite-os como o diabo evita a cruz ou como Bob Marley evitava banhos. Você pode acabar na mesma situação que eu: comendo o alimento destinado à seu animal de estimação e sendo obrigada a limpar a sujeira gosmenta na pia depois.

Desplugue sua mente.

Desplugue sua mente.
Viva a vida fora da prisão eletrônica.