Creio que minha insatisfação está mudando de rumo. Sentar e escrever está cada vez mais difícil porque, ao passo em que sofro, engulo em silêncio o sentimento. Ninguém precisa entender, ninguém precisa se importar. Ninguém além de mim mesma. Não sou muito dada à revoltas interiores que não modificarão em nada o exterior. Pra falar a verdade, mudar o meu próprio, em toda a minha calma, foi a tarefa mais perturbadora que já tive de fazer. Tive vontade de gritar, de sair correndo. Tive vontade de morrer. O fato é que eu continuei, não sei se por minha própria vontade, mas acabei transformando o Eu em algo mais admirável, mais interessante e mais fácil de lidar. Abaixei a guarda quase até o chão. Percebi que a essência da vida - se é que existe uma - é tirar proveito daquilo que te machuca. As cicatrizes sempre deixam, junto com a marca na pele, algum ensinamento, algum valor que possa ser importante no futuro. Aí, entra a questão do futuro. Será que eu terei um? Quer dizer, a cada dia que passa, a ideia de crescer, de assumir esse Eu que eu construí para o mundo vem me preocupando. Perguntas como "e se eu tiver tomado a decisão errada?" passaram a encher meu cérebro com o líquido da indecisão. Se eu fosse sozinha, ou seja, se não tivesse um namorado ou uma família que me prendesse, o quê eu faria? Certo, eu tenho um namorado e uma família que me apóiam e que eu tenho certeza de que jamais me impedirão de fazer algo que eu realmente queira. Depois de analisar esse fato, a minha indecisão perde o sentido, não é? Não, não é. Ela aumenta ainda mais. Acho que, antes de tudo, eu tenho medo de decepcionar à mim mesma. Eu tenho medo de fracassar. Sabe, chegar lá no fim da vida e perceber que deixei várias boas oportunidades passarem, que todas as decisões importantes que tomei contribuíram para que eu fosse destruída. Eu não quero ser destruída. Na verdade, eu não quero muito para mim. Quero só um espaço, um lugar que eu possa chamar de meu e me perder no abismo da minha mente. Quero uma cama para deitar e, talvez ou eventualmente, alguém para dividí-la comigo, seja na tranquilidade do sono ou no movimento frenético do sexo. Quero gatos - sim, muitos gatos! - ao invés de molduras e quadros bonitos, para admirar sua suavidade e desenvoltura, e é claro, pegar no colo e fazer cafuné. Acaba aqui. Não é muito, mas é o que eu quero. É a vida que eu quero. Acho que eu preciso de um pouco mais de coragem, a minha racionalidade está sufocando o meu poder de agir. É, talvez eu precise apenas agir. Deixar de pensar, de complicar as coisas e pensar em planos B ou C.
Hmm... Interessante. Acho que vou esperar o momento certo. Talvez, a decisão que eu tome seja a certa também.