sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Não-Hipócrita

Era linda como sempre foi, satisfeita com o pouco que lhe ofereciam e orgulhosa com o muito que proporcionava. Mas não havia escolha. A cada novo dia, a cada novo banho, a cada nova troca de lençóis, tudo - tudo lhe parecia perfeitamente normal; santificado, na medida de seus pecados. E quem há de lhe tirar a razão? Não seria ela apenas mais uma vítima do mundo humano, vítima do próprio desejo do homem? 

Não, ela não se via como vítima. Sentia-se abençoada, por mais negro que fosse o estilo de vida que levava. Achava o céu lindo, o mar lindo, tudo lindo, puro, casto. Era, sua própria alma, casta por naturalidade. Seu corpo, ao contrário, serviu de santuário para o desejo alheio, viesse do masculino ou feminino. Seu corpo era uma extensão daquilo que as pessoas escondem de si mesmas; um depósito para os diversos fluídos corporais dos quais tanto temem os outros. Seus amigos - seus clientes.

E há pecado quando o pecador não sente que está pecando? Há sentença quando o culpado não sente que detém a culpa?

Não, caríssimos. Não há.

Seu paraíso era real. Sua alma já fora absolvida. Ela, como qualquer outro pobre mortal, cumpria apenas os desígnios naturais do mundo, os desígnios do homem - consequentemente, desígnios de Deus. E era feliz, não por viver no paraíso, mas por fazer de seu inferno o melhor lugar da Terra.

Desplugue sua mente.

Desplugue sua mente.
Viva a vida fora da prisão eletrônica.