quarta-feira, 19 de maio de 2010

Cartas Cariocas

"Rio de Janeiro, 5 de Fevereiro de 2010

 'A razão disso é eu estar muito doente', decidiu, por fim, de modo lúgubre. 'Eu me atormento e não sei direito o que faço... ontem, anteontem, e por todo esse tempo, tenho estado a me atormentar... quando estiver curado, deixarei de me torturar... mas e se eu não conseguir sarar? Senhor, como estou cansado de tudo isso!'

 Crime e Castigo, Dostoiévski
 Parte I - Pag. 118

'Quem foi que viu minha dor chorando?!
Saio. Minh'alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!'

 Queixas Noturnas, Augusto dos Anjos
  Primeira Estrofe"

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"Rio de Janeiro, 9 de Fevereiro de 2010

 A chuva, que ameaça cair ainda esta tarde, trouxe até meu olfato uma brisa diferente. Parece que meu medo desapareceu. É o normal, sentir-se desesperado quando se está a beira do precipício, mas o meu abismo era habitado pelos piores demônios - aqueles que eu mesma criei para mim.

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 O tormento do homem é ele próprio - quando se decide abusar do poder que lhe foi estabelecido. É a metáfora da qual abusaram todos os poetas. O homem é prepotente; eis, então, o predador. Ao mesmo tempo, faz-se presa de si e dos outros."

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"Rio de Janeiro, 14 de Fevereiro de 2010

 Insanidades preenchem minha mente, e a arte incompreendida é a minha única válvula de escape do momento. Talvez porque o tédio começou a tomar conta, mas não sei dizer ao certo. Ultimamente, sinto como se estivesse perdendo o dom da palavra. Nada soa bonito como antes. Falta de prática? Quem sabe? Mesmo minha letra, que sempre foi caprichada, agora parece sair da caneta que é segurada por mãos analfabetas. Hm, não queria usar essa palavra. Como pode uma mão ser analfabeta? Tenho só dezoito anos, por favor! Conheci alguém que dizia que quanto mais se fala, maiores são as chances de dizer besteira. 
 Me distraí.
 Me despeço."

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"Rio de Janeiro, 19 de Fevereiro de 2010

 FUTURO. Trabalho, profissão, faculdade, moradia... algumas vezes a pressão é tão grande que eu sinto vontade de dar um tiro em minha própria cabeça. Metafóriocamente, claro. E essa sensação aumenta quando há influências externas das ações de pessoas que eu amo ou considero de alguma forma. Futuro? Eu tenho medo de pensar nisso. Medo de fracassar. Medo de perder o amor. Medo de passar a vida inteira estagnada no mesmo lugar, pff. E há aquela parte obscura de mim, aquela que nunca se mostra. Eu não conheço essa parte - não sei do que ela é capaz. A cada vez que eu tento ir mais fundo dentro de mim, maior é o buraco que encontro. Um lugar que parece nunca ter sido preenchido.
 Ah! hoje o dia parecia perfeito: céu nublado, encoberto de nuvens; clima agradável, não fresco, mas um calor aconchegante - quase tépido. Mesmo me sentindo deslocada, parecia o dia perfeito. Parecia.
 Então, como um quebra-cabeças que se completa sozinho, fez-se à frente dos meus olhos o quadro dos meus inimigos. Decepcionei-me, o que é difícil ser, nesse caso, contente. Então os braços em que eu me apoiava se negaram a me oferecer ajuda?
 Talvez eu esteja dramatizando demais a situação. Talvez seja apenas a verdade, nua e crua. Talvez seja o meu destino - ou a minha ruína.
 O silêncio é quase insuportável, mas não é tão impactante como quando eu tenho que encarar a expressão dos olhos magoados - e quase tão perturbados quanto os meus.
 Eu não sou mulher de calar e consentir, mas o medo que sinto de provocar uma guerra é tão poderoso quanto o meu gênio. Cilada, cilada...
 Estou sendo levada a um labirinto, e preciso escolher entre ferir ou ser ferida.
 Pensando bem, não vou abrir mão do que eu amo. Dane-se tudo! Nem que seja preciso abrir caminho com a minha própria cabeça, essa água não tirar o que é precioso para mim!"

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"Rio de Janeiro, 20 de Fevereiro de 2010

 Carta suspensa."

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"Rio de Janeiro, 22 de Fevereiro de 2010

 Carta suspensa."

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"Rio de Janeiro, 24 de Fevereiro de 2010  

 Ventos reconfortantes sopram meus cabelos. Experimento, desde muito, uma sensação de desapego e desenraizamento. A cada dia que passa, mesmo que eu ainda sinta saudade de casa, percebo que aumentam as asas que me guiarão pelo mundo. Amadurecimento, creio ser esta a palavra para descrever o meu momento. E todos parecem perceber melhor esta minha nova face.
 E assim, sequencialmente, chegará o tempo em que estarei completamente pronta e sã para suspender-me e voar por mim mesma."

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"Rio de Janeiro, 28 de Fevereiro de 2010

 Chove. Estou sozinha, mas não só. Há vários conceitos passíveis a descrever meus sentimentos, mas se fosse uma tarefa fácil essa de desvendar a mim mesma, eu provavelmente já a teria concluído a tempos.
 Todas as coisas do mundo possuem uma profundidade, um jeito de ser. Existe uma filosofia nas coisas mais simples criadas pelo homem - até mesmo naquelas criadas por Deus.
 Talvez as questões importantes para a humanidade não precisem de respostas. Talvez eu não precise, de fato, me conhecer tão bem quanto eu gostaria. Pessoalmente, acho que esse ar de mistério é o responsável por criar a beleza das coisas. As questões sem resposta sempre nos fascinarão, por mais que seja, este, o fascínio da ignorância!"

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"Rio de Janeiro, 7 de Março de 2010

 Sinto-me confortável como há tempos não sentia. A agonia e a preocupação deste período se foram. Ficou, apenas, aquela pequena parte de mim, sempre com medo e completamente cheia de insegurança.
 O amor possui seus favos e caldos quentes sim, mas nem sempre os caminhos da vida são tão cheios de flores quanto se pensa. Estou aprendendo a amar e, com o amor, consigo usar o cérebro ao invés de, puramente, os instintos.
 Sou feliz, e na medida em que meu ego se desarma aprendo a valorizar cada vez mais o que possuo. E é tanto! Afortunada sou, por poder viver o céu e o inferno desta vida."

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"Rio de Janeiro, 19 de Março de 2010

 '... quase se pôs a rir, embora sentisse uma dor no peito. Parecia-lhe que todo o seu passado, todos os pensamentos, todos os enigmas de antes, os temas de outrora, as impressões pretéritas, todo aquele espetáculo, e ele mesmo, tudo, tudo agora estava em algum ponto profundo, lá embaixo, a seus pés... parecia que estava voando muito alto e que tudo desaparecera de sua vista. 
 Parecia-lhe que, naquele momento, ele havia se separado de todos e de tudo, cortado por uma faca..."

 Crime e Castigo, Dostoiévski
 Parte II - Pag. 122"

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"Rio de Janeiro, 22 de Março de 2010

 É esquisito ser água e óleo ao mesmo tempo. Quer dizer, nascer com o dom da palavra e dar-se bem com a maioria e, derepente, querer isolar-se do mundo (algumas vezes até de si mesmo).
As pessoas parecem não estar preparadas para esse tipo de comportamento. Não digo que seja preconceito, apenas a ignorância natural de quem nunca teve de conviver com a bipolaridade. 
 Ah, o ser humano e suas patologias! Enquanto meu humor se mantém estável, meu nível de felicidade e despreocupação parece controlado. E sei que, ao controle de mim, posso ter o controle do mundo!"

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 As outras cartas foram suspensas. 

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 Não sei se faço bem ou mal. Se servir de exemplo para quem sofre os mesmos tormentos que eu, ótimo. Se não, a culpa - definitivamente - não é minha.

Desplugue sua mente.

Desplugue sua mente.
Viva a vida fora da prisão eletrônica.