terça-feira, 4 de agosto de 2009

As duas Princesas

"Terças-feiras ensolaradas podem esconder pequenos segredos, invisíveis aos olhos dos menos observadores. Aquela terça nasceu como uma outra qualquer, desde o meu despertar até os passeios da tarde, e nada parecia querer se revelar à mim. Ainda. Quando eu a vi, sentada naquele café, uma sensação estranha tomou conta de mim - uma inquietação fora do normal, já que eu sempre fora muito tranquila e racional.


Ela me cumprimentou com um abraço, e eu pude sentir que aquele dia não seria esquecido. Ela não era uma garota comum. Ela era ela. O cheiro insuportavelmente bom de seu perfume me fez lembrar de momentos agradáveis do meu passado - aquela era a fragrância que fazia soar em mim o sino da felicidade. De repente, percebi que não estava tão arrumada quanto deveria estar para chamar a atenção dela, e tive de lutar contra todos os tipos de sentimentos auto-depreciativos que se alojaram em mim para poder parecer o mais interessante possível. Eu não sabia mais o que estava pensando. E a sociedade? Para o inferno! Eu sabia o que importava, e ela me dava cada vez mais mostras de que sabia também.


Como as coisas boas duram pouco, o dia virou noite e o meu humor sumiu junto com a minha passividade natural. Ela decidiu prolongar a tarde com os amigos, e pareceu-me que fazia questão de que eu a prolongasse também - e eu, é claro, não negaria. Me senti confiante em cima do meu salto alto xadrez, e deixei que as roupas e a maquiagem revelassem um pouco do que eu sou de verdade: elegante e selvagem. A minha auto-confiança pareceu incomodar todos à mesa, e logo ela deixou que a insanidade a possuísse.


Tomei um banho dourado de chopp, e teria tomado o cuidado de me molhar mais se soubesse que ficaríamos, as duas, sozinhas naquele banheiro. Ah! Os meus pensamentos mais sórdidos vieram à tona quando seus dedos, através do papel, tocaram meu corpo encharcado de álcool. "Continue!" - eu pensava enquanto admirava a feição de desejo e constrangimento da minha salvadora. Éramos eu e ela. Só nós e o som das mesas barulhentas lá fora. E nada aconteceu. Tive medo por mim, por ela, e por uma terceira pessoa, também uma princesa, mas não tão majestosa quando a Flor Síria que me acompanhava. Deixei transparecer o medo e ela acabou se afastando.


Mas, para fugir de mim, seria necessário que ela fugisse de si mesma.


A noite seguiu regada a álcool, tabaco, sinuca e ciúmes, mas não deixei de observá-la por cima da luz azulada abaixo de minha cabeça. E eu sabia que, do final do meu olhar, ela retribuía as minhas intenções secretas. Mais algumas horas e não tínhamos mais tabaco, nem sinuca, nem ciúmes, apenas o álcool que circulava em nosso corpo através do sangue. E, quando nos vimos "sozinhas" novamente, a minha vontade de avançar foi quase tão incontrolável quanto a dela. Apesar da vontade, ainda havia a timidez. Eu não queria, de forma alguma, apressá-la e parecer uma maluca carente, mas eu exalava desejo. Então, com a parte mais sagaz de mim, resolvi apelar para o jogo da provocação.


Nossos pedaços se atraíam, mas havia uma parede invisível que nos impedia de alcançar o paraíso. Até que língua e nuca tornaram-se um só. Queria fazer com que ela me sentisse, queria que ela se fizesse ser sentida, e então passaram-se as horas. Um dia e uma noite haviam passado sem que nossas chamas se unissem. Existia uma última chance, e não seria desperdiçada. Precisei assumir uma pose controladora ao puxá-la para perto de mim, mas não houve resistências. Nossas mentes já estavam em sintonia. Ela queria o mesmo que eu.


Mais uma vez, seu perfume de flor que desabrocha carregou minha sanidade para longe de mim. Eu gostava das sensações proporcionadas por seu toque, e permanecemos unidas naquele abraço energizante por vários minutos, uma aproveitando o melhor da outra. Sem joguinhos, sem mentiras... Até que...


Minha cabeça pesou e meu coração batia aceleradamente enquanto eu entrava naquele sonho encantado. Minhas papilas gustativas provaram o mais saboroso dos licores; meu tato tocou a mais suave das rosas; meu olfato sentiu o mais delicioso dos perfumes. Enquanto meus olhos fechados mergulhavam em marés distantes, minha audição captava canções de vozes serenas, lascivas, sedutoras...


Cada célula de meu corpo entrou em transe, e eu pude sentir o desejo sagrado fluindo em meio à luxúria do momento e à pureza do sentimento. Estávamos envoltas numa aura de entrega e santidade; mergulhadas no abismo da satisfação; conectadas, para sempre, à um fio invisível de amor e devoção.


Éramos duas, eu e ela.
Ela dentro de mim.
Eu dentro dela."

Desplugue sua mente.

Desplugue sua mente.
Viva a vida fora da prisão eletrônica.